Em 1964 ocorreu o fenômeno ‘The
Beatles’ no Hit Parade norte-americano e o quarteto de Liverpool emplacava um
sucesso atrás do outro. O primeiro foi “I Want to Hold Your Hand”, que ficou
sete semanas em 1.º lugar. Quando uma música dos Beatles deixava o primeiro
posto logo surgia outra para ocupar aquela posição nas paradas. Foi assim com “She Loves You”, “Can’t Buy me Love”,
“Love me Do” e “A Hard Day’s Night”. Cantores românticos como Bing Crosby,
Tony Bennett, Frank Sinatra, Perry Como, Andy Williams e Dean Martin pareciam
ultrapassados e condenados aos palcos de Las Vegas se quisessem sobreviver pois
seus discos vendiam cada vez menos. O mercado consumidor era cada vez mais
dominado por jovens alucinados pela música dos Beatles, sobrando espaço ainda
para outros grupos ingleses como The Dave Clark Five, Animals, Billy J. Kramer,
Manfred Mann, The Searchers (também de Liverpoll), os afilhados dos Beatles
Peter & Gordon e até cantoras como Dusty Springfield. Surpreendentemente,
quem destronaria os Beatles por uma semana seria um daqueles cantores fora de
moda chamado Dean Martin.
Dean Martin era cantor e formara nos
anos 40 uma dupla com Jerry Lewis que causava sensação no show-business. Levados
para Hollywood seus filmes se tornaram enormes sucessos, até que em 1956
decidiram se separar. Como o engraçado da dupla era Jerry Lewis, não faltou
quem dissesse que a carreira de Dean Martin como ator estava encerrada. Jerry
Lewis passou a fazer sucesso sozinho e Dean Martin, ao contrário do que se
suspeitava, provou ser bom ator dramático. Isso ocorreu em filmes como “Os
Deuses Vencidos” (ao lado de Marlon Brando e Montgomery Clift), “Deus Sabe
Quanto Amei” (com Frank Sinatra) e principalmente em “Onde Começa o Inferno”
(com John Wayne). Quando a propalada genialidade de Jerry Lewis deixou de
existir e ninguém mais queria ver suas comédias, Dean Martin estrelava de dois
a três filmes por ano. Martin que não levava nada a sério, nem a si mesmo, chegou
até interpretar um agente secreto (Matt Helm) aproveitando o filão aberto por
James Bond. Se a carreira de ator de Dean Martin ia bastante bem, o mesmo não
se pode dizer dele como cantor.
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Dean e Jerry Lewis; à direita Montgomery Clift, Marlon Brando e Dean Martin durante as filmagens de "Os Deuses Vencidos". |
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Bing Crosby e Dean Martin |
Descendente de italianos (seu nome
verdadeiro era Dino Paul Crocetti), Dean Martin foi um dos grandes vendedores
de discos dos anos 50, emplacando numerosos sucessos como “You Belong to Me”,
“Return to Me”, “Volare” e principalmente “That’s Amore” (1953) e “Memories Are
Made of This” (1955), estas duas últimas tendo alcançado a 1.ª posição nas
listas das mais vendidas. Dean Martin, assim como praticamente todos os
cantores que começaram a cantar nos anos 30 e 40, foi influenciado por Bing
Crosby. Poucos porém conseguiram assimilar aquele jeito casual de dizer o
fraseado musical de Crosby como Dean Martin. Talvez até porque na vida real
Dino era assim mesmo, parecendo não levar nada a sério mas fazendo tudo com
perfeição e profissionalismo. Com sua voz melodiosa Dean Martin se especializou
em cantar canções que falavam das coisas da Itália, mas bastante eclético Dino
agradava cantando músicas country como “Rio Bravo”, tema do western “Onde
Começa o Inferno”. Mas jamais Dean Martin se afastou do cancioneiro clássico
norte-americano, na linha de Frank Sinatra, de quem se tornou amigo
inseparável.
Em 1962 Frank Sinatra fundou sua
própria gravadora, a Reprise Records e Dean Martin deixou a Capitol onde estava
há vários anos, passando para a gravadora do amigo Sinatra. Embora gravando
regularmente os LPs de Dean Martin tinham vendas modestas sendo destinados às
coleções daqueles fãs verdadeiros da boa música norte-americana. Em 1964 Dean
Martin gravou o LP “Dream With Dean”, composto por aquelas canções que ele
costumava cantar com grande agrado nos night-clubs. Dino já havia gravado onze
músicas, faltando a 12.ª para completar o álbum, cujo condutor da orquestra era
o pianista-maestro-arranjador Ken Lane. Também compositor, Ken Lane disse a
Dino para gravar “Everybody Loves Somebody”, aquela canção que Lane havia
composto em parceria com Irving Taylor em 1949, quando trabalhava com Frank
Sinatra. Por sinal o ‘The Voice’ foi o primeiro cantor a gravar “Everybody
Loves Somebody”, sendo seguido depois por Peggy Lee, Dinah Washington e outros
artistas. Porém nenhum deles conseguiu tornar a música um sucesso. “Everybody
Loves Somebody” era originalmente uma canção de andamento romântico e, diferentemente
das gravações anteriores, Dean Martin adaptou a canção para seu estilo mais
descontraído e como era uma gravação para completar um disco percebe-se que
Dino está mais solto e à vontade que nunca nessa interpretação. Ele mesmo acreditava
que ninguém levasse “Everybody Loves Somebody” a sério.
A Reprise Records por sua vez não fez
nenhum esforço para promover “Everybody Loves Somebody” que, por um desses
mistérios do mercado fonográfico, começou a ser executada por algumas rádios.
Primeiro em New Orleans, depois em Worcester (Massachussets) e daí foi se
espalhando e sendo cada vez mais pedida. Percebendo a possibilidade de moderado
sucesso, a Reprise lançou um compacto simples com “Everybody Loves Somebody”,
disco que apareceu pela primeira vez entre as 100 mais vendidas em 72.º lugar,
em 27/06/64. O novo sucesso dos Beatles era “A Hard Day’s Night”, música-título
do primeiro filme do The Fab Four. E o que parecia impossível aconteceu quando
galgando pouco a pouco as posições principais do Hit Parade, “Everybody Loves
Somebody” atingiu o 1.º lugar como música mais vendida na semana de 15 de
agosto de 1964. Dean Martin voltava a conhecer o sabor de um verdadeiro sucesso
musical e numa situação totalmente adversa que se rendeu a seu talento.
Com o sucesso de “Everybody Loves
Somebody”, pensou-se logo em produzir um show semanal de televisão, o “The Dean
Martin Show”, cujo tema musical era justamente “Everybody Loves Somebody”. O
programa de TV que parecia ter sido produzido apenas para aproveitar o
momentâneo sucesso musical de Dean Martin agradou em cheio e revelou-se o
talento de apresentador do ator-cantor. Ken Lane foi o responsável pela parte
musical do “The Dean Martin Show” que permaneceu por nove temporadas no ar (1965-1974)
e Martin em alguns anos foi o artista que mais dinheiro ganhava no
show-business com a venda de seus discos, apresentações em Las Vegas e em casa
noturnas, filmes e seu programa de televisão. Nem Frank Sinatra ganhava tanto
como Dean Martin, o que em nada mudava o estilo bon vivant de quem não levava
nada a sério do ex-boxeador Kid Crochet, ele mesmo, Dean Martin. Sucesso de
vendas também na Inglaterra e no Canadá (e mesmo no Brasil), “Everybody Loves
Somebody” se tornou uma espécie de marca registrada de Dean Martin, rendendo
mais um Golden Records a esse que foi um dos maiores artistas norte-americanos
do século 20.